sexta-feira, 1 de março de 2013

Realizar

As coisas estão fluindo e eu estou percebendo que elas estão indo pro caminho certo. De repente, eu olhei ao redor e percebi que já devia estar aqui há muito tempo, na verdade, eu não devia, eu queria; mas no fundo eu sei que há tempos atrás eu não deixaria nada disso acontecer.
Não deixaria pelo simples fato de que, naquela época, eu não iria querer. Eu tinha medo, e o medo paralisa a gente. Esconde sonhos nas gavetas. 
De vez em quando, eu olho aquele sol despontando, trazendo uma vida que eu não conhecia, e eu sinto as mãos tremerem.
Viver tudo isso era o que eu mais temia.
Pra espantar o medo eu costumo conversar e, ultimamente, tenho falado mais que o normal, evitado almoçar sozinha e preparar o jantar sem ouvir uma boa música ou conversar com alguém.
Porque, de repente, eu me vi abrindo a gaveta devagar e revirando alguns papéis. Me deparei com sonhos empoeirados, mal sonhados, rabiscados. Encontrei outros acinzentados - o tempo tirou a cor. Outros ainda, com a letra da menina que sonhava em patinar na neve, ter uma floricultura e criar pássaros. 
Eu não tive coragem de abrir toda a gaveta, abri o suficiente pra puxar com dois dedos aquilo que eu queria resgatar. Estava rasgado, amassado num canto, ainda com as marcas de algumas lágrimas.
Me recusei a passá-lo a limpo. Eu teimo em desconfiar que as coisas ainda podem dar errado e, se dessa vez der errado, é só devolver o sonho na gaveta.
Eu também queria achar esplêndido, queria acordar encantada, sonhar todas as noites. Mas, chega uma hora que a gente prefere seguir em frente com os pés no chão. Eu já flutuei demais.
Eu quero sonhar que, amanhã, uma menina que também vai sonhar em patinar na neve, ter uma floricultura e criar pássaros não vai abrir a gaveta pra resgatar um sonho como esse. Não vai empurrar pro canto alguns sonhos que o tempo tirou a cor.
Antes eu sonhava em me realizar.
Hoje eu sonho em realizar alguém.





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