sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Saudade...

É uma falta absurda. Um vazio que nada preenche. Uma saudade de devorar a presença de alguém. E, quando o vento muda de direção, eu tenho a certeza de que nunca eu tinha visto nada parecido. Na verdade, eu não sabia de nada, não tinha visto o amor e estava exatamente como antes quando eu passei a sentir isso aqui que me tira o fôlego todos os dias.

Eu pensar que eu achava impossível. Mas vou confessar: eu sempre achei impossível, mas no fundo eu sempre soube que daria certo.

Eu e essa minha mania de ver tudo desse jeito tão diferente. Ninguém nunca entendeu porque eu parabenizo quem sofre, e alerto quem vence. Ninguém também nunca entendeu porque eu sei que um dia todo mundo se encontra, as feridas são curadas, as cicatrizes viram uma marca íntima, como aquelas pintinhas que vão surgindo ao decorrer da vida e personalizando a pessoa. Pode apostar, depois de um tempo você faz questão que as cicatrizes fiquem ali... Não pra você olhar e lembrar e sofrer, mas pra elas mostrarem pro mundo inteiro que você sofreu, chorou, o mundo caiu sobre a sua cabeça, mas você continuou... Você atravessou a rua, subiu as escadas, andou milhas e milhas, continua andando... E não desistiu! Agora você anda e não deixa fragmentos por onde passa, deixa saudade... E isso vale muito à pena!

E hoje eu não queria parar aqui e escrever, mas é essa minha intensidade que não me deixa dormir a dias.

E por acreditar tanto nesse amor em mim é que eu te tenho sempre que eu preciso aqui comigo. Como numa noite de inverno, com os trovões parecendo bichos ferozes querendo entrar no meu quarto; ou uma noite quente de primavera, quando eu prefiro olhar a lua que dormir. Eu te tenho aqui comigo quando o vento muda de direção, quando eu jogo talheres por engano no lixo, quando eu não consigo pegar no sono.

Eu reclamava de todas as dores possíveis, mas quem disse que eu confessava que a maior delas era a do coração?

Eu continuo emburrada durante todo o dia, mal humorada com os carteiros escandalosos e com o cachorro do vizinho que late igual um gato miando. Eu continuo com a minha mania de querer resolver todas as coisas, e de não ouvir músicas de adolescentes apaixonados. Evito ver beijos cinematográficos, e aqueles que a vizinha vive dando no namorado que a visita todas as noites com aquela lambreta barulhenta.

A diferença é que esse pedaço de carne que vive pulsando aqui dentro está em suas mãos, e não é porque você roubou não, é que desde o dia em que eu te olhei eu perdi o medo e entreguei-o pra você e disse bem baixinho: ‘toma, faz o que quiser’. Foi como se eu me esquecesse do perigo que é fazer isso, e aí as dores que eu sentia se esconderam, se camuflaram e hoje eu nem lembro mais como é dormir com aquela mão sufocando a minha garganta me impedindo de gritar.

E há quem diga que eu mudei e que eu não sou mais a mesma. Eu não sei disso porque eu nunca fui alguém definido, cheio de planos futurísticos e essas coisas que vejo a maioria dos jovens da minha idade ter.

Eu sempre fui de planos repentinos, idéias malucas, e sempre acreditei nas pessoas bancando a distante, a insensível, a ‘casca grossa’. Não, não pense que eu mudei... Eu sou isso aqui hoje, amanhã me reinvento e a única certeza é que vou continuar amando.

Eu nem sei por que vim aqui escrever tudo isso, mas é que de repente bateu uma saudade, uma vontade de estar perto, de sentir o cheiro, de abraçar apertado e deitar no peito. Só isso. Nada demais.

Droga, eu sempre falo demais... Meu avô diz que ninguém pode comigo quando eu digo tudo o que sinto. Mas, e daí? É verdade, e isso justifica meu único amor, meus poucos amigos e minhas plantas. É como um filtro: vão ficando as pessoas que realmente contam, que não se importam com meus olhos continuamente marejados, nem com minhas mãos geladas e meus pés congelados, nem com a minha mania de ser extremamente sincera sem nem precisar pronunciar uma única palavra.

Não é legal ser assim. Mas eu sou, e eu aprendi a me aceitar assim... E nem todo mundo ta pronto pra conviver com alguém assim. Ninguém quer me suportar falando de tudo o que eu sou, às vezes, nem eu me suporto.

Há dias atrás eu não entendia o que sinto, e eu me irrito quando sinto o que não conheço. Mas o amor é assim... E eu já disse como ele é. Ele vai se alojando devagar, tomando espaço, e daqui a pouco ele é todo você.

Aí você cria essa mania de intensidade, de extremo cuidado e amor...

E é assim que eu tô hoje: intensa.

E essa constante preocupação em saber onde, como você está não é nada demais. É que você não sabe como eu te enxergo. Qualquer coisa que te aconteça, acontece com o meu mundo inteiro... E quando alguém te abraça, por instantes, está abraçando o meu mundo inteiro. Entende agora?

É o meu mundo. Cheio de coisas minhas: canetas sem tinta, flores de isopor pra por no cabelo, caderno sem folhas, sapato sem salto, unhas sem esmalte...

Não foi difícil ficar adulto, porque ao teu lado eu sou isso aqui que todo mundo vê. E eu não vou deixar de ser nunca. Por que é só ao teu lado que eu me agrado, eu me acalmo, eu me divirto. E vai ser ao seu lado que eu vou passar o resto da minha vida, segurando a sua mão e cantando a sua canção de ninar esperando você sorrir.

Não foi nada, nada mesmo... Só uma saudade, assim... De repente.

Quando sair, apaga a luz e fecha a porta.

Um comentário:

  1. Que intenso texto! Fiquei pensando nas cicatrizes e em aceita-las, querer que elas estejam ali, pra todo mundo ter certeza de que vocês as têm, mas continua vivendo. Adorei.

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Se não gostar, tudo bem. Apenas respeite. Porque até eu tive que aprender a me respeitar.